sexta-feira, 22 de março de 2013

Resenha de Macunaíma

"É negro, é branco é nissei, é verde, é índio peladão, é mameluco, é cafuzo, é confusão". Em uma só frase muitas etnias, em um pequeno grande livro muitos brasis. Dos índios do alto amazonas ao capitalista paulista "comedor de gente"; dos terreiros no Rio de Janeiro aos cantos mais interiores deste país. Quase alcançando a completude ao retratar de forma inovadora a nossa gente, Mário de Andrade, em sua obra prima, constitui de forma majestosa um olhar para o que é a Brasilidade. No passado, no presente e para o futuro.

Como um dos pioneiros do modernismo, não é difícil perceber que o autor faz reverência marcante ao movimento. Desapegado do formalismo e da linguagem rebuscada românticos, a escrita do livro apresenta um fluxo espaço temporal quase frenéticos. Aliás, se este também deve ser o ritmo da leitura, bem verdade que aos trôpegos diante de tantos regionalismos, neologismos e vocábulos indígenas, contraditória é a postura "dolce far niente" de Macunaíma. Imperador do mato virgem, herói de muitos e de nenhum caráter, é o marasmo personificado da gente brasileira.

Entre surtos esporádicos de ação consciente e premeditada, este herói vive embalado pelas próprias vontades. Mente sem saber porquê, "brinca" mesmo sem querer, dissimula, inventa motivos absurdos e faz qualquer um acreditar. Não faz por bem ou por mal, simplesmente faz. Filho do medo da noite, traz uma visão antropomorfista de todos os seres, sejam eles animados ou inanimados. Tudo e todos teriam a mesma essência, diferindo somente a forma com que cada indivíduo se materializaria, em vida e também após a morte.

Ao narrar a saga deste herói em busca de sua muiraquitã, uma espécie de amuleto místico e protetor, o autor concatena histórias, mitos, fatos, e as mais diversas características do povo brasileiro de forma magistral. Macunaíma ao rodar praticamente todo o Brasil, vivenciando muitas vezes episódios sem qualquer relação com a busca do dito amuleto, experimenta de tudo um pouco conforme seu bel prazer.

Através do herói e suas aventuras "a la Dom Quixote" podemos perceber melhor a nós mesmos. Seu olhar sobre a cidade grande provoca, inevitavelmente, reflexões sobre vida urbana e suas "necessidades". Se é bem verdade que o herói volta para sua terra, após conseguir reaver sua muiraquitã, não podemos dizer que ele era o mesmo ao voltar às margens Uriacoera. Sem ser somente negro, índio ou príncipe, Macumaína, como também é chamado, é único, mas ao mesmo tempo tudo isso, e todos nós.

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