domingo, 9 de setembro de 2012

Resenha - O Casamento

por Luciana Vasconcellos

Publicado em 1966, O Casamento foi o único romance que Nelson Rodrigues escreveu diretamente para ser publicado em forma de livro, e não em capítulos diários como crônicas de jornal. O autor coloca em cheque crenças e valores consagrados pela sociedade, trabalhando temas polêmicos como o adultério, a homossexualidade e a perversão de forma crua e direta – a vida como ela é. O livro foi, pouco tempo depois de lançado, censurado e proibido pelo Ministro da Justiça do governo de Castello Branco por ser considerado subversivo e indecoroso, atentando contra a organização da família.
A história de O Casamento gira em torno do casamento de Glorinha com Teófilo, e sua trama central se passa nas 48 horas que antecedem a cerimônia. O médico da noiva, doutor Camarinha, procura o pai da moça, Sabino, para revelar que flagrara o noivo no seu consultório beijando o seu assistente, Zé Honório. O dilema se instala na mente de Sabino: contar ou não o acontecido à filha, acusando o genro de homossexual - manter as aparências para sustentar uma reputação de família respeitável, ou evitar um destino de infelicidade para sua filha?
Sabino, personagem principal do romance, é visto como um senhor sério e respeitável, possuindo um falso moralismo que leva a extremos, a ponto de não dizer certas palavras, por considerá-las vulgares demais, mas, ao mesmo tempo, marcar, às vésperas do casamento de sua filha, um encontro furtivo com a secretária. Ele é um homem que tenta manter a aparência de forte e decidido, mas que possui muitas inseguranças, precisando reiteradamente ser assegurado de que é um homem de virtude.
Diante do dilema do casamento da filha com um suposto pederasta, sem saber o que fazer, procura o conselheiro espiritual e amigo da família, Monsenhor Bernardo. Ao encontrar-se com o religioso, Sabino não consegue revelar o motivo de sua consulta, recebendo, todavia, o conselho que precisava ouvir para reafirmar sua visão sobre o problema. “Casamento não se adia. Simplesmente, não se adia”.
Nelson Rodrigues recorta o cotidiano de uma família, trazendo a tona e colocando em destaque acontecimentos que o autor julga estarem presentes na vida familiar genericamente. O livro coloca no centro das atenções todas aquelas pequenas coisas invisíveis que todos sabem que existem e que acontecem, mas que preferem ignorar do que admitir sua existência e lidar com suas conseqüências. Cada personagem do romance possui seu drama e seus demônios particulares - perversão sexual, homossexualismo, adultério e incesto. Na fala do personagem Monsenhor Bernardo – “Todos nós somos leprosos! E não há exceção. Nenhuma, nenhuma. Somos leprosos. (...) Assuma a sua lepra !”.
Em sua crítica à família pequeno-burguesa, Nelson Rodrigues questiona diversos tabus e destaca a hipocrisia moral da sociedade brasileira que, em meio a escândalos sociais, suicídio e homicídio, afirma, como diz o Dr. Sabino que “o importante é o casamento”.

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