sábado, 31 de março de 2012

Resenha - Os Sertões

por Álvaro Costa
“Parou aí indefinidamente, nas fronteiras oscilantes da loucura, nessa zona mental onde se confundem facínoras e heróis, reformadores brilhantes e aleijões tacanhos, e se acotovelam gênios e degenerados.” É assim que Euclides da Cunha descreve a psique de Antonio Vicente Mendes Maciel, o Antonio Conselheiro. Líder de caráter messiânico e de carisma sem igual que após uma peregrinação por cerca de vinte anos acumulou fama e fiéis, “fundando” o arraial de Canudos no sertão da Bahia.
A célebre obra está dividida em três partes: A Terra, O homem e A Luta. Na primeira, o autor descreve minuciosa e muitas vezes tecnicamente a topografia do Brasil e em especial do Sertão brasileiro. Região esta da qual fala também sobre o clima, flora e fauna. Tal descrição apesar de ralentar o ritmo de leitura, se mostra muitíssimo importante ao longo de todo o livro. Uma vez que transporta o leitor para o universo do sertanejo, do jagunço, justificando seu modo de vida e seu modo de ser; Na segunda parte, é descrito como se deu a formação do povo brasileiro e em especial do jagunço, ator principal da obra. Homem marcado por uma vida sem descanso no sertão árido e traiçoeiro para aqueles que não o conhecem; Na última parte, Euclides da Cunha, testemunha ocular da guerra de canudos, narra também de forma majestosa, a guerra propriamente dita entre os seguidores de Antonio Conselheiro e as diversas expedições do exército Brasileiro. O autor mostra como foi forte a resistência dos sertanejos. Indivíduos que tinham ao seu lado o próprio sertão, aliado indispensável que tão bem conheciam. Ao contrário do que se passava em relação às forças militares brasileiras, que somente conseguiram eliminar Canudos após quatro expedições, as quais somavam 10 mil soldados.
Muitas justificativas são apresentadas ao longo da terceira parte para justificar a resistência inimaginável, ao menos na mente dos comandantes e dos soldados do exército brasileiro. O desconhecimento do sertão, o clima castigante, o relevo quase intransponível e a escassez de água e alimentos. Último fator agravado ainda pela precária e difícil logística de se alimentar três, quatro, seis mil soldados famigerados por dias intermináveis de batalha. Para além de fatores físicos e fisiológicos, não podemos deixar de citar como os fatores psicológicos muito beneficiaram a resistência sertaneja.
Os jagunços, criados naquele ambiente, vestidos com suas roupas de couro camuflavam-se por entre o relevo e a caatinga. Mais do que parecer, eram mesmo invisíveis aos olhos do exército brasileiro. Por vezes chegavam, atiravam e assaltavam os soldados sem serem vistos, deixando-os sempre em alerta diante da possibilidade de um assalto a qualquer momento. Para além disso, o “touareg” brasileiro recepcionara as expedições que vinham acudir as derrotadas com corredores de cadáveres da soldadesca brasileira, mortos em combates anteriores. Porquanto as igrejas estiveram de pé, todos os dias de batalha intensa os sertanejos rezavam a Ave Maria, e o ecôo serene das 30 mil vozes com certeza chegava aos ouvidos dos soldados perturbando-os e arrepiando-os, deixando -os perplexos diante de tamanha devoção.
Ademais cabe ainda dizer que enquanto o povo de Canudos estava defendendo bravamente e cuidando de sua terra, de suas casas, o exército brasileiro ali chegara sem um motivo determinado. Dizia-se que Canudos tinha de ser eliminada, pois o arraial representava a resistência monarquista à chegada da república. Euclides da Cunha deixa transparecer ao longo da obra, que tal fundamento, com o qual talvez precipuamente concordasse, era na verdade um delírio muito maior do que do próprio Antonio Conselheiro.
De fato, o “Beato” pregara contra a república e as suas leis, mas não fora este o fator determinante para o extermínio de Canudos. Como sabemos, a cidade chegou a reunir cerca de trinta mil pessoas em aproximadamente cinco mil casas. Tal número pode parecer pequeno, mas basta imaginarmos que em pleno sertão, havia isolado, seguindo o Conselheiro meio Maracanã (depois da reforma). O deslocamento de tantas pessoas das cidades do sertão para Canudos com certeza preocupara os poderios locais, embora ainda não se pudesse falar de coronelismo. O fato é que uma cidade, não representa simplesmente um aglomerado de indivíduos. A cidade vive, tem economia e precisa de uma organização e de um líder para subsistir. Embora muito do que se consumia também fosse produzido na cidade, Canudos não deixava de representar um encalce a organização institucional e de poder que começava a surgir no país.
A guerra se legitimara de sopetão, bem como o extermínio do “fanático” rebanho do Conselheiro. A cidadela que em seus primeiros anos era invisível, de uma só vez tornou-se conhecida por todo o Brasil. Nas capitais os jornais “informavam” á sociedade, a urgência da tomada do arraial, dado o perigo que este representava a soberania e existência da República Brasileira. Acusavam-se os monarquistas de apoio e fornecimento de armamento aos sertanejos. Isto sim um verdadeiro delírio.
Do mesmo modo que tornou-se visível aos olhos da sociedade brasileira, após sua derrocada e extermínio de sua população, num passe de mágica, Canudos retomou sua invisibilidade. Não só àquela época, mas ainda hoje. Invisível não só porque a sociedade pouco conhece sua história a fundo, mas também e essencialmente porque constantemente o país fecha os olhos aos "Canudos de hoje". Isto é, à pobreza, ao autoritarismo das forças policiais, ao desrespeito ao cidadão e à própria cultura brasileira.

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